Serviços de usinagem: demanda supera expectativa

Os primeiros sinais de recuperação da demanda por serviços de usinagem vieram no segundo semestre do ano passado. Hoje, boa parte das empresas que atua nesse segmento comemora o aquecimento do mercado. Tem até quem qualifique o cenário atual como superaquecido. 

Mas não se pode dizer que esta é a realidade de todas as empresas do segmento, que é bastante diversificado, em grande parte composto por pequenas e médias empresas - sem esquecer que algumas não sobreviveram ao período mais crítico da pandemia.

Os fornecedores de serviços para o setor aeroespacial, por exemplo, vivem um momento distinto, até porque parte deles eram exclusivos da Embraer. “Nossa avaliação é de que as encomendas da Embraer começarão a voltar somente no próximo ano, mas retomar mesmo só em 2023”, observa Fábio Luna Panageiro, diretor de Desenvolvimento e Engenharia da PanMetal, que tem na produção de peças aeronáuticas o seu principal segmento de atuação, mas não o único.

A empresa, instalada em Taubaté (SP), que conta com um parque fabril com mais de 100 máquinas CNC, enfrentou uma forte queda no volume de pedidos, tanto nacionais quanto internacionais. “Hoje estamos trabalhando com capacidade reduzida. Fomos ao mercado em busca de novos clientes, fomos homologados por várias empresas, mas este é um processo demorado. Não se vira a chave de um dia para o outro”, informa.

Precificação

“Tivemos um primeiro semestre muito forte”, afirma Bruno Gellert, CEO da Peerdustry, plataforma de intermediação de serviços. “A procura é muito grande, mas isso se deve em parte à “chacoalhada” que este mercado teve com o forte aumento ocorrido nas matérias-primas, em especial o aço”.

De acordo com Gellert, o aumento trouxe grande dificuldade na precificação dos serviços, tanto de parte dos fornecedores, quanto dos compradores. Os fornecedores, diante das dúvidas sobre fixar um valor sem saber ao certo quando o pedido irá entrar - levando em conta que o aço tem sofrido variações expressivas em curtos espaços de tempo. 

E os compradores que se surpreendem com os novos valores e decidem ir ao mercado em busca de novos fornecedores. Para solucionar a questão, a Peerdustry até desenvolveu um modelo matemático, que usa preços flexíveis, ajustando os preços da matéria-prima ao momento do fechamento do contrato.

De acordo com Osmar Capretz, diretor da Caprez, voltada à intermediação de serviços de usinagem, o aumento dos custos das matérias-primas levou os departamentos de compras a realizarem novas consultas. 

“No nosso mercado, antes desse inacreditável aumento no custo da matéria-prima, era muito comum o comprador clonar pedidos de compras anteriores, mas os fornecedores não tinham mais como absorver aqueles aumentos. Então, os clientes foram obrigados a fazer novas consultas e readequar a carteira”, detalha o diretor.

Na opinião de Capretz, o mercado está extremamente aquecido e em pleno crescimento. “Na realidade, tirando uma pequena queda no início da pandemia, 2020 foi muito parecido com 2019, principalmente pelo aquecimento do mercado no último trimestre do ano e que, em 2021, já está muito superior”, observa. Entre os setores que estão demando mais serviços, aponta energia, mineração, máquinas e equipamentos, papel e celulose e agronegócio.

Carteira Lotada

Na Usinagem Irmãos Narcizo, de Louveira (SP), os pedidos tiveram forte incremento em 2021. A empresa está com a carteira lotada para os próximos três meses. “No geral, o mercado de usinagem está com um crescimento muito forte, com demandas altíssimas de trabalho, totalmente na contramão das perspectivas do mercado por conta da pandemia”, diz a gerente geral Ligia Rossi.

Em 2020, a Irmãos Narcizo cresceu quase 30% em relação a 2019. Em 2021, os negócios já estão em volume 35% superiores ao de 2020. Frente a esses percentuais e ao bom desempenho do primeiro semestre, a empresa se mostra bastante otimista para a segunda metade do ano. 

Os segmentos de robótica, automação, maquinário e envase de cosméticos são os responsáveis pelo crescimento dos pedidos oriundos de antigos e novos clientes. “Os mercados de máquinas agrícolas e de envase de cosméticos estão superaquecidos”, destaca a gerente.

Usimarsopro

Pamela Matias, diretora Usimarsopro Usinagem e Ferramentaria, destaca que apesar do crescimento do mercado, muitos pequenos prestadores “ficaram no meio do caminho” por conta dos impactos da pandemia. “A gente conquistou novos clientes, mas não acredito que se deva ao fato de muitos prestadores terem fechado, mas sim por nós termos uma estrutura comercial mais sólida”, argumenta.

A alta nos pedidos em carteira da Usimarsopro está diretamente relacionada ao desempenho do setor de plásticos, sobretudo produtos para os nichos alimentício e de higiene. No ano passado, a receita cresceu 30% em relação a 2019. Em 2021, a meta é manter o faturamento do ano passado.

Novos negócios - Eduardo Florencio Lima Neto, diretor Industrial da Nepec Indústria Mecânica, afirma que a vacinação possibilitou o surgimento de mais negócios, com aumento bastante significativo na quantidade de cotações. Além disso, muitos projetos estão sendo retomados. 

“Estamos tendo o retrabalho de orçar tudo novamente, matéria-prima, ferramentas etc. Podemos dizer que 2021, em termos de volume de serviços, está alinhado com 2019”, informa. Em 2020, o faturamento da Nepec foi 47% menor do que no ano anterior.

No ano passado, a demanda da Nepec veio basicamente da área agrícola, com produção de peças para tratores, retroescavadeiras etc. Em 2021, apesar dos pedidos de antigos clientes, a maior demanda vem dos novos, de diferentes mercados. Com a paralisação ocorrida por conta da chegada da pandemia ao Brasil, a Nepec buscou diferentes nichos. “Pulverizamos bastante a nossa atuação”, destaca Neto.

Como parte de sua estratégia, a Nepec promoveu a substituição de máquinas. Trocou alguns tornos CNC por centros de usinagem. "Ainda temos torno CNC, mas nossa força maior vem de centros de usinagem. Conseguimos ampliar nosso hub de atuação por conta dessa mudança na capacidade produtiva. Isso foi determinante para a nossa sobrevivência”, afirma Neto.

Mão de obra

O rápido aquecimento trouxe outras dificuldades para os prestadores de serviços de usinagem, como a escassez de mão de obra qualificada. Para Lígia Rossi este se tornou um gargalo. “Estamos com muita escassez. Na Irmãos Narcizo estamos com pelo menos quatro vagas em aberto: torneiro mecânico, fresador, ajustador e ajudante geral. Não tem mão de obra disponível, principalmente para cargos mais técnicos”, afirma.

Problema similar ocorre na Usimarsopro. “Quando encontramos profissionais qualificados, eles pedem muito mais do que o mercado oferece e a contratação se torna inviável”, afirma Pamela Matias.

Para Osmar Capretz, a falta de mão de obra é um dos principais motivos de os prestadores não conseguirem atender aos prazos de entrega. “Isso é muito preocupante, pois além do aumento dos custos da matéria-prima, energia e insumos, passamos por um período de reajuste de custo de mão de obra”, comenta Capretz. “Além disso, para manter ou contratar funcionários, as empresas estão tendo de aumentar os salários e benefícios oferecidos”.

Digitalização - Fábio Panageiro, da PanMetal, acrescenta outra questão que considera fundamental para o futuro do mercado de prestadores de serviços de usinagem: a digitalização e a automatização das empresas. Em sua opinião, mesmo as pequenas e médias indústrias precisam se capacitar para coletar os dados de produção e aprender a trabalhar com esses dados. 

Precisam contar com monitoramento automático da máquina, conhecer a performance, as perdas, os maiores ganhos, ou seja, saber realmente qual o custo do produto. “Hoje, 90% das empresas não sabem o custo real de seus produtos e/ou serviços. Com a digitalização eles vão saber”, diz, acrescentando que o segundo passo é automatizar, usando inclusive as informações que a digitalização oferece.

Fonte: Usinagem Brasil



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