Escassez de insumos para a indústria atinge nível recorde

Uma em cada quatro empresas da indústria de transformação do Brasil aponta a escassez de matérias-primas como o principal fator limitativo à expansão dos negócios em abril, novo recorde em 20 anos da sondagem do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). 

Os dados demonstram que a situação, na verdade, está piorando ao longo de 2021, já que, em janeiro, 20% das indústrias indicaram esse problema, contra 25,3% agora.

`O mais citado sempre foi a dificuldade de demanda, mas, desde outubro de 2020, quando houve o primeiro recorde, observamos que isso mudou`, diz Claudia Perdigão, economista do Ibre. 

O movimento está associado à desarticulação das cadeias na pandemia, o que levou a retomadas desiguais entre os segmentos a partir do segundo semestre de 2020, lembra Claudia. "Alguns setores tiveram dificuldade de reativar suas plantas e houve descasamento no fornecimento."

Em um primeiro momento da crise sanitária, essa falta de coordenação ocorreu em nível nacional e internacional, mas, no período recente, principalmente desde o início de 2021, o Brasil começou a sofrer mais com questões domésticas, como a desvalorização do real ante o dólar, aponta Claudia. 

"Temos dificuldade de comprar do exterior, porque os produtos ficam mais caros, e começou a ficar muito mais interessante também exportar os insumos, o que torna a escassez de oferta interna maior."

Todas as chamadas "categorias de uso" observaram piora no acesso a insumos entre janeiro e abril de 2021. Os bens de consumo duráveis, muito impactados pela cadeia do aço, continuam os mais afetados, com 65,5% das empresas indicando a escassez de matéria-prima como entrave em abril. Mas o percentual de indústrias relatando esse problema subiu mais desde janeiro para os bens de capital, de 11,4% para 20,5%. Essa é outra categoria muito pressionada pelos preços do aço, aponta Claudia.

"A situação só piorou. Não tenho registro de empresas parando por falta de aço, mas a dificuldade para comprar continua, os prazos estão dilatados e os preços entram em órbita", diz José Velloso, presidente-executivo da associação da indústria de máquinas e equipamentos, a Abimaq. "Ainda não temos perspectiva de melhora."

O aumento na proporção de reclamantes foi de mesma magnitude entre os bens de consumo não duráveis (de 21,9% em janeiro para 31% em abril), mas aqui o que pesa mais é o acesso a embalagens e papelão, segundo Claudia.

Entre as atividades industriais, chama a atenção que, em geral, aquelas que já estavam sofrendo bastante em janeiro foram as que registraram aumento das reclamações em abril, observa a economista do Ibre. "Houve um agravamento do problema."

No segmento químico, que tem relatado questões logísticas, por exemplo, a proporção de empresas apontando a falta de insumos como barreira passou de 25,5% em janeiro para 47,2% em abril. Parcela dessas empresas sente ainda reflexos de um inverno rigoroso nos Estados Unidos sobre o mercado de resinas, o que afeta também parcialmente a indústria de limpeza e perfumaria, cuja proporção de reclamantes foi de 45% para 55,7%.

"A pandemia gerou uma desorganização grande das cadeias de produção, que ainda não foi solucionada e em alguns casos até se deteriorou. Isso é particularmente preocupante na indústria automobilística, como se vê pelas interrupções temporárias de montadoras", acrescenta Rodrigo Nishida, da LCA Consultores.

Marco Polo de Mello Lopes, presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, diz, sobre o arrefecimento das reclamações entre produtores de metal, que para eles o problema não está na disponibilidade, mas na volatilidade de preços dos insumos.

Sobre o fornecimento de aço a outros segmentos industriais, ele afirma que a siderurgia brasileira vem ampliando sua oferta desde junho do ano passado, entregando em março de 2021 dois milhões de toneladas de produtos ao mercado interno, o maior volume desde outubro de 2013.

Fonte: Valor Econômico



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