Mapeamento dos desperdícios Lean e Green para melhoria da eficiência das empresas

A eliminação dos desperdícios é o centro da discussão no Sistema Toyota de Produção (STP). Esses desperdícios produtivos são classificados como: i) movimentação desnecessária, ii) transporte excessivo, iii) excesso de produção, iv) inventário, v) defeitos, vi) espera e vii) processo desnecessário. Posteriormente foi incluído um oitavo tipo de desperdício, que seria o desperdício da capacidade intelectual dos colaboradores.

Para a identificação dos desperdícios lean é necessário um conjunto de aões relacionadas à solução de problemas, ao gerenciamento da informação e à tarefa de transformação física, da matéria-prima até o produto acabado, denominado Value Stream Mapping (VSM) ou Mapeamento de Fluxo de Valor (MFV). O MFV é uma técnica que compila todas as etapas envolvidas nos fluxos de material e de informação, que vai desde os fornecedores até o cliente final. É fundamental pois identifica os principais desperdícios da organização, fornecendo uma visão horizontal do processo e possibilitando a priorização das atividades. Evita o uso de ferramentas isoladas e prioriza um olhar total sobre o processo. Ao conduzir o VSM é necessário entender o processo completo: mapeamento, identificação e eliminação dos desperdícios. Para realizá-lo, são necessários os seguintes passos:

a) Selecionar a família de produtos: definir um grupo de produtos dentro de toda a gama oferecida pela empresa. Essa seleção representa os produtos com maior criticidade e demanda, dentro da relevância para o cliente final.

b) Determinar o gerente do fluxo de valor: definir um responsável para entender o fluxo em sua totalidade. Dentro da atividade de mapeamento, esse líder possui autonomia para realizar mudanças necessárias, de maneira a praticar o princípio da melhoria contínua.

c) Desenhar o estado atual e futuro: no estado atual, analisa-se o fluxo a ser melhorado e se relatam todos os desperdícios identificados durante as etapas percorridas do processo produtivo. O estado futuro é desenhado de maneira a esquecer todos esses desperdícios.

d) Planejar e implementar o plano de ação: planejar todas as ações necessárias para eliminar os desperdícios encontrados no fluxo e implementá-las.


Figura 1 - Etapas do VSM. - Fonte: Rother e Shook (1999).


Por um outro lado, as empresas e a sociedade de uma maneira geral encontram-se como no centro dos problemas relativos aos impactos ambientais, em decorrência dos gerados nos processos produtivos. Cada vez mais as organizações precisam alinhar suas estratégias ambientais às prioridades tradicionais de uma organização e é evidente que as operações produtivas causam impactos ambientais para as comunidades. Os riscos globais referentes a problemas ambientais e a competição por eficiência fizeram surgir o conceito de Green Manufacturing, manufatura verde, ou simplesmente green.

De posse da visão dos diferentes impactos na manufatura, os desperdícios ambientais foram mapeados de maneira a direcionar os esforços na identificação dentro dos processos produtivos. Os desperdícios ambientais também não agregam valor ao cliente e por conseguinte, necessitam ser eliminados. Estão distribuídos para serem identificados no processo por meio da ferramenta Environmental Toolkit da seguinte forma:

a) Uso de energia, água e matéria-prima em excesso. A quantidade definida para o processo ultrapassa o que é necessário à produção para a exata quantidade desejada por parte do cliente.

b) Poluentes e resíduos de materiais que o processo gerou, tais como emissões para a atmosfera, produção de resíduos sólidos, produção de resíduos perigosos e poluição nas redes de água.

c) Uso de materiais perigosos que possivelmente geram danos à saúde humana durante a sua produção ou em contato com outras substâncias.

Ao analisar as características e a forma de se relacionar entre os modelos de melhoria contínua e green manufacturing foram identificadas convergências as quais mostram que o green manufacturing e o lean manufacturing buscam um bem comum: a utilização de técnicas de redução de desperdício. Da mesma forma que o componente lean da manufatura emprega o entendimento dos desperdícios produtivos como algo que não agrega valor ao cliente final, os desperdícios ambientais também não agregam valor a esse cliente, e por conseguinte, necessitam ser eliminados.

Os desperdícios lean possuem impactos ambientais consideráveis (Quadro 1). A movimentação desnecessária, que é um dos primeiros desperdícios identificados pelo lean, ratifica o melhor uso da energia utilizada pelo transporte. A emissão de CO2 também é importante para esse processo. Quanto menor movimentação, menor a quantidade de embalagens, menor também é quantidade de danos que podem acontecer.

O excesso de produção é um desperdício que evidencia as peças que são fabricadas além da necessidade do cliente, impactando no consumo além do necessário de energia e matéria-prima para fazer os produtos. Além da possibilidade de obsolescência de materiais. O inventário produzido ao longo do processo impacta na quantidade de embalagem necessária para estocar o estoque em processo, além de ser necessário considerar a necessidade de deterioração obsolescência do estoque.

Os defeitos de produção também são desperdícios consideráveis nos aspectos de lean, com esse desperdício tanto matéria-prima quanto energia são consumidos para realizar novos produtos para repor produtos defeituosos. A reciclagem e descarte também são consequências desse processo, além da necessidade de mais espaço para retrabalho e reparo, aumentando custos de estocagem.

A espera implica em um potencial dano aos produtos causando possíveis desperdícios, além da energia consumida para estocagem no momento de espero. O Processo desnecessário impacta em mais produto final e matéria prima consumida, além do uso de energia e emissões.


Quadro 1- Relação entre os desperdícios lean e seus impactos ambientais. Fonte: Traduzido e Adaptado do EPA (2007).

Os conceitos se divergem no que tangem os desperdícios, enquanto o lean busca a eliminação dos sete desperdícios citados por Ohno (1988) o green busca o uso ineficiente de recursos, refugos e emissões. Enquanto um busca a redução de custos e flexibilidade o outro foca no desenvolvimento sustentável e no impacto ecológico da produção. O cliente nas perspectiva do lean está satisfeito com a redução de custo e principalmente do tempo de atravessamento, enquanto que o cliente green é ambientalmente consciente e envolvido com a causa. A pratica do lean sugere o aumento da frequência de reposição de um item, enquanto que o green busca a diminuição da frequência em virtude da movimentação.

Por um outro lado tanto as metodologias lean e green buscam a redução dos desperdícios de maneira comum. O envolvimento das pessoas e a organização é ponto chave em ambas as metodologias, pois centralizam as suas atividades no envolvimento da organização como um todo. A redução do tempo de atravessamento é algo que converge em ambas as metodologias, pois ajuda na redução dos estoques e em consequente menor impacto ambiental e econômico. Divergências e convergências foram identificadas (Quadro 2).


Quadro 2- Análise de convergência e divergência entre os conceitos lean e green.-Fonte: Adaptado de Dües et al. (2013).

O movimento em torno de operações produtivas mais sustentáveis das empresas tem forçado a balancear os ganhos de eficiência e os impactos ambientais nas operações e nos produtos. A exploração de um desdobramento dos conceitos do lean e do green de maneira sequencial e simultânea é o resultado de ações balanceadas.


Para a aplicação do VSM lean green existem muitos métodos, os quais possuem uma estrutura clássica que define como podem ser categorizados: 1) desenho do estado atual; 2) cálculo de indicadores; 3) execução das melhorias; e 4) definição do estado futuro. Os métodos divergiram na quantidade de indicadores utilizados, na quantidade de ferramentas para análise e no uso de ferramentas de simulação.

O estudo de ferramentas que facilitam a convergência dessas duas teorias tem aumentado e a necessidade de um olhar mais aprofundado para o entendimento dos cases de aplicação tem se tornado fundamental.

Uma metodologia chamada Sus-VSM, que é um VSM sustentável para a identificação inicial das operações com desperdícios e a avaliação sustentável. A definição de 6 grupos de indicadores (impacto ambiental, consumo de energia, custos, segurança do operador, saúde e gerenciamento dos desperdícios) foi a forma de incluir o olhar ambiental no VSM. Indicadores mais voltados às questões sociais também foram encontrados: absenteísmo, questões ergonômicas. Além obviamente de indicadores mais voltados ao lean como os percentuais de: Valor Agregado (VA), Não-agregação de valor (NVA) e Não-Agregação de valor, porém necessário (NVAA).

Existem diversas oportunidades para usar as ferramentas lean green para o mapeamento e a realização de melhorias. A definição de algumas métricas, alguns símbolos visuais, e os detalhes para todos os setores precisam ser consolidados – como por exemplo, a definição e construção de indicadores. O VSM lean green assemelha-se ao VSM tradicional. Os praticantes do lean manufacturing precisam adicionar questões relacionadas às ferramentas ambientais para suas pesquisas e, dessa maneira, eliminar os desperdícios das empresas. O uso de uma ferramenta expandida pode ajudar as empresas a alcançarem objetivos ambientais, seus desejos e suas necessidades. As práticas dessa ferramenta podem levar a empresas com resultados ambientais e financeiros melhores, e em consequência, criar uma sociedade ambientalmente mais responsável.

De acordo com especialistas, a maior barreira de implementação é a dificuldade de capturar todas as informações de diferentes produtos em um mesmo VSM e é complexa a colocação de todas as informações relevantes dentro desse mapa.

A falta de informações relacionadas à água, energia e outros indicadores foram frequentemente mencionadas como a mais importante barreira para os especialistas. Quanto aos direcionadores da empresa, o maior deles é a implementação de métodos de mapeamento que desdobrem o lean e o green - melhorando os resultados da empresa em uma visão macro do processo.

A definição do estabelecimento de um método é uma questão importante, mas não foi marcada como o mais importante dos direcionadores. A dificuldade no cálculo dos indicadores pode dificultar uma comparação entre lean e green em diferentes empresas, pois não há uma precisão de como estão/foram definidos. Dessa forma, tanto a comparação com outras empresas (benchmarking) quanto a comparação interna nos processos da empresa (kaizen) é dificultada.

A definição de um método de VSM considerando questões ambientais impacta totalmente em como as informações serão construídas e conectadas. A falta de informação da quantidade de desperdício é crucial para o sucesso do VSM e pode ser observada por esta pesquisa.


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