Avaliação do nível de maturidade em ferramentarias - projeto piloto em Joinville

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Atuar em um mercado altamente competitivo sem conhecimento das próprias competências e, principalmente, deficiências é uma decisão de altíssimo risco. Identificar o nível de maturidade e adequar à melhor condição é questão de sobrevivência

A competitividade industrial tem requerido das empresas elevados padrões de qualidade, minimização dos custos e elevada capacidade de entrega.

Neste cenário, um importante segmento industrial tem papel fundamental: a cadeia produtiva do setor de ferramentarias. Um molde ou uma matriz, produto de uma ferramentaria, é um recurso sempre adaptado para uma tarefa específica e sua produção é unitária ou intermitente.

Em geral, este segmento tem-se mostrado pouco competitivo, afetando o desempenho de algumas cadeias produtivas, como de transformação de plásticos e metalmecânica. Tal fato é decorrente da baixa estruturação das empresas do segmento, principalmente no que tange ao atendimento dos padrões de qualidade, custo e entrega.

Além destas dificuldades, o segmento de ferramentaria tem grandes obstáculos adicionais, que são:

i) Alto custo do investimento em ativos (prédio, máquinas e softwares );

ii) Carência por métodos e ferramentas de gestão industrial, envolvendo o processo de desenvolvimento de produtos, processos produtivos, gestão da qualidade, gestão financeira, gestão de recursos humanos, gestão dos processos produtivos e gestão da inovação e;

iii) Necessidade de capacitação na área técnica relacionadas a tecnologia de usinagem, materiais, metrologia, simulação, prototipagem, entre outras áreas.

Este projeto piloto busca dar suporte aos atuais polos produtores de moldes e matrizes, por intermédio do estudo, proposição e aplicação de um modelo de desenvolvimento industrial estruturante, de forma a potencializar as indústrias automobilísticas e de outros bens de consumo final que são fortes demandantes de moldes e matrizes.

Em suma, com o objetivo de corroborar com estas questões, este projeto tem como objetivo a avaliação da maturidade de ferramentarias para o Estado de Santa Catarina, assim como, o desenvolvimento de um modelo de desenvolvimento destas ferramentarias.

É importante salientar que esta iniciativa teve a participação do ISI - Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura, ABINFER- Associação Brasileira da Indústria de Ferramentais, FAPESC - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina, e UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina.


Construção do modelo de maturidade para avaliação das ferramentarias


O desenvolvimento do modelo de maturidade para avaliação das ferramentarias tem os objetivos de:

• Contribuir para a melhoria contínua dos processos organizacionais das ferramentarias;

• Viabilizar a análise do desempenho das ferramentarias;

• Embasar a análise crítica dos resultados obtidos e do processo de tomada decisão;

• Potencializar a definição e a participação das empresas em ações para melhoria do desempenho;

• Facilitar o planejamento, a implantação de ações e acompanhamento da empresa.

A proposição do modelo envolveu o estudo de modelos de formação de clusterde empresas, incubação de empresas, desenvolvimento de empresas, os quais estão descritos nas referências ; processos de integração empresa/instituições de pesquisa e desenvolvimento, apresentado na referência; modelo de desenvolvimento de fornecedores, como descrito na referência.

Para auxiliar o entendimento do projeto ocorreu o desenvolvimento do Project Model Canvas (PMC) e do Business Model Canvas (BMC). Com base no PMC e no BMC, observou-se que o cenário do setor de ferramentaria apresenta as seguintes características:

• O setor tem necessidade de capacitação em gestão e processos tecnológicos, de inovação nas áreas de gestão e processos tecnológicos e de acesso a tecnologia avançada em áreas específicas;

• Os principais problemas são custo e marketing (60 a 70%) e tecnologia (30 a 40%). Em se tratando das tecnologias, 80% dos problemas são decorrentes de acesso ao conhecimento e aplicação de tecnologias atuais e 20 % de tecnologias futuras;

• Os Institutos SENAI de Inovação podem oferecer acesso a conhecimentos nas áreas de gestão e tecnologia, bem como formação de recursos humanos;

• A ABINFER pode articular junto às ferramentarias o apoio e a participação na iniciativa e;

• A disponibilidade de um Modelo de Desenvolvimento Industrial (EDI) fornecerá subsídios para que as ações ocorram.

Da mesma forma, foram estabelecidas algumas premissas para a construção e aplicação do modelo de avaliação da maturidade das ferramentarias. Estas premissas estão transcritas a seguir:

• As soluções devem contemplar conhecimentos nas áreas de educação e tecnologia;

• As soluções serão ofertadas considerando diferentes formas de remuneração e execução;

• As empresas participantes terão acesso a um programa de desenvolvimento da gestão da ferramentaria, que engloba a capacitação, a implementação e o acompanhamento do nível de evolução da empresa;

• As empresas serão qualificadas, de forma simples, considerando os capitais humano, estrutural e relacional, a serem construídos baseados em modelos do Prêmio Nacional de Qualidade (PNQ) e modelos específicos e;

• O modelo deve apresentar: simplicidade (ser simples e de preferência exigir pouca ou nenhuma explicação), agregabilidade (estar relacionado a cadeia de valor do negócio), representatividade (os indicadores devem contribuir de forma explícita para o cumprimento dos objetivos estratégicos), rastreabilidade (facilidade para identificação da origem dos dados), economia (devem custar o mínimo possível e ter o máximo de justificativa possível), adaptabilidade (atender os diferentes perfis de ferramentarias), praticidade (a interpretação dos dados deve subsidiar o processo decisório) e ter estabilidade (permanece ao longo do tempo).

É importante ressaltar que a base para a implantação do modelo de avaliação da maturidade das ferramentarias foi o modelo preconizado pelo European Intellectual Capital Statement Guideline.

Este busca avaliar a empresa considerando os capitais humano, relacional e estrutural. Neste modelo, entende-se que a maturidade de uma empresa está relacionada a forma na qual os seus principais processos são planejados, executados, controlados e gerenciados.

Desta forma, com base no European Intellectual Capital Statement Guideline foi estruturado um modelo para avaliar a maturidade das ferramentarias, que contempla os pilares apresentados na tabela 1. Nela constam as dimensões avaliadas, o agrupamento e principais desdobramentos das questões que foram realizadas junto aos principais gestores das ferramentarias entrevistadas.


Tabela 1 – Dimensões abordadas para avaliação da maturidade das ferramentarias

Com base nestas dimensões de avaliação dos capitais, foram desenvolvidas questões que permitem identificar o nível de maturidade das ferramentarias. Estes níveis variam, conforme exposto na tabela 2, entre: não aceitável, ruim, satisfatório, muito bom e excelente.


Tabela 2 – Graduação dos níveis de maturidade (Fonte: autores)

E, para cada dimensão, foram elaboradas questões conforme apresentadas na tabela 3 (para o capital humano - educação).


Tabela 3 – Questões para avaliação do capital humano - educação (Fonte: autores)

Na ferramenta desenvolvida para aplicar o modelo de maturidade, as respostas das questões geraram gráficos que indicam o nível de maturidade global de cada ferramentaria.

E, para cada questão, por item de capital e por capital. A média das respostas gera um índice de maturidade da ferramentaria, sendo excelente (5), muito bom (4), satisfatório (3), ruim (2) e não aceitável (1). Nas figuras 1, 2 e 3 tem um exemplo de gráfico gerado, respectivamente, por item de capital e por capital.


Figura 1 – Avaliação de cada questão

Figura 2 – Avaliação por itens de cada capital

Figura 3 – Avaliação por capital


Aplicação do modelo de maturidade nas ferramentarias

A região de Joinville é uma tradicional produtora de moldesde injeção e a cidade destaca-se no cenário nacional como polo ferramenteiro.

De acordo com o RAIS 2011, o município possui 462 empresas classificadas como ferramentarias, e, para este trabalho foi considerado um universo de 23 empresas que representam 5% do total.

Este número foi considerado adequado para o projeto piloto, visto que neste grupo encontram-se empresas de pequeno, médio e grande porte. A escolha das ferramentarias contou com a efetiva participação da ABINFER.

O trabalho foi desenvolvido no período compreendido entre setembro de 2015 e abril de 2016. Neste período, as principais atividades realizadas foram:

i) Desenvolvimento do instrumento de identificação do nível de maturidade das empresas;

ii) Agendamento das visitas com os empresários;

iii) Visitas às empresas;

iv) Aplicação do instrumento de análise;

v) Compilação dos resultados e;

vi) Devolutiva dos resultados compilados aos empresários

Nesta etapa do projeto não foram feitas observações ou inferências nos dados coletados, visto que o principal objetivo foi gerar um diagnóstico da situação atual das empresas participantes.

As entrevistas foram realizadas de forma pessoal, com o proprietário ou principal gestor da empresa. O formulário de avaliação foi apresentado impresso, pessoalmente aos entrevistados, de modo a garantir que as questões nele contidas estavam em branco e não haveria nenhuma possibilidade de vício nas respostas do instrumento.

Estas entrevistas foram conduzidas por dois entrevistadores, visando ampliar o entendimento e evitar falhas de interpretação nas respostas obtidas.

Após a identificação das respostas obtidas, estas foram transferidas para o meio eletrônico, em planilha própria para esta finalidade e, então, gerados os dados do nível de maturidade da empresa. Estes dados foram apresentados em gráfico radar, evidenciando os pontos fortes e onde há oportunidades de melhoria à serem tratadas pela empresa.

Posteriormente, este documento foi impresso e entregue em mãos ao respondente da pesquisa, de modo a garantir sigilo e confidencialidade aos dados referentes à empresa obtidos por meio da entrevista realizada.

Resultados e discussão

A análise da aplicação do modelo de avaliação de maturidade mostra que a média de avaliação das empresas foi de 3,2 (três vírgula dois), ou seja, na média as empresas apresentam um desempenho um pouco melhor do que satisfatório.

Por outro lado, é importante salientar que existem empresas que estão entre o nível muito bom e excelente. A figura 4 mostra a nota média das empresas por capital.


Figura 4 – Nota média das empresas por capital

Na figura 5 está representada a média das notas das empresas considerando diferentes dimensões.


Figura 5 – Média das notas das empresas considerando diferentes dimensões

Na figura 6 está representada a média das notas das empresas considerando todas as dimensões analisadas. No caso foi estabelecida uma média desejada igual a 4, que corresponde ao desempenho muito bom.


Figura 6 – Média das notas das empresas considerando todas dimensões analisadas

Como pode ser observado, existem diversas oportunidades de melhoria para as empresas avaliadas. Para isto, com base nas notas apresentadas, podem ser estabelecidas algumas formas de atuação nas empresas. Devido aos temas dos problemas relacionados, diferentes formas de atuação são necessárias. Estas formas envolvem:

i) Realização de programa de formação e treinamento;

ii) Participação em workshop gratuito e;

iii) Participação no programa Brasil Mais Produtivo.

Estas formas de atuação foram estabelecidas por dimensão e estão representadas na figura 7.


Figura 7 – Formas de atuação nas ferramentarias para aumentar o nível de maturidade

Conclusões parciais

A análise das empresas por intermédio de um modelo de maturidade permite identificar as potencialidades e as oportunidades de melhoria das ferramentarias. Além disto, o instrumento permite que a empresa realize também uma análise de benchmark dos seus processos, avaliando em qual nível de maturidade está e o que seria o nível de maior maturidade.

Agradecimentos

A participação das ferramentarias e à FAPESC pela disponibilidade de recursos para elaboração do projeto.

Co-autores

André Marcon Zanatta andre.zanatta@sc.senai.br

Cristiano Vasconcellos Ferreiracristiano.v.ferreira@ufsc.br

Christian Dihlmann dihlmann@brturbo.com.br

Jefferson de Oliveira Gomes jefferson.gomes@sc.senai.br

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