Associativismo, sim!

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Integrar ideias e habilidades para alcançar mais rápido os resultados é uma das propostas do associativismo. Ele torna-se ainda mais importante em momentos de crise e incertezas onde as organizações precisam superar contextos desafiadores.

Recentemente realizei pesquisa sobre redes sociais inter e intraorganizacionais e o desempenho de empresas incubadas. Entre as várias questões pesquisadas uma delas foi sobre a importância que os gestores de empresas incubadas atribuem ao associativismo.

A conclusão sobre essa questão foi que os gestores dessas empresas pouca importância dispensam ao tema e, consequentemente, pouco o praticam. Mais interessante fica o resultado da pesquisa quando observamos as respostas à outra questão: “desenvolvimento de networkexterno”. A esse quesito os mesmos gestores atribuem grande importância.

Um dos objetivos básicos do associativismo é você, a sua organização, criar e manter relações formais ou informais com os demais atores do segmento. Logo, uma das práticas do associativismo é o “network externo”, o que me parece não ter sido percebido pelos jovens gestores de empresas incubadas que responderam a pesquisa.

O termo “associativismo” vem de "associação". Associação é a união de grupos com fins e objetivos econômicos, culturais e/ou sociais comuns. Com a intenção de superar obstáculos, fortalecer relações e promover a melhoria individual e coletiva, as pessoas e as organizações se unem em associações procurando gerar benefícios ou fornecer serviços para os associados.

O associativismo pode ser representado por diferentes formas de agrupamento de empresas: cooperativas, associações de classe, associações por setor (comercial, industrial ou agrícola), redes setoriais, Arranjos Produtivos Locais (APL) ou clustere consórcios.

As associações podem ser formais (legalmente instituídas), por exemplo, a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Podem ainda ser informais, como os grupos criados nas redes sociais. As associações aglutinam serviços, atividades e conhecimentos na busca de um mesmo conjunto de interesses. Entre os objetivos do associativismo podemos enumerar os seguintes:

·Superar obstáculos;


·Fortalecer relações;


·Promover a melhoria individual e coletiva;


·Gerar benefícios;


·Fornecer serviços para os associados;


·Somar serviços, atividades e conhecimentos na busca de um mesmo conjunto de interesses.


De acordo com o SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas),o associativismo formal é regido pelos seguintes princípios:

·Princípio da Adesão Voluntária e Livre - “As associações são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a usar os seus serviços e dispostas a aceitar as responsabilidades de sócio, sem discriminação social, racial, política, religiosa ou gênero”;


·Princípio da Gestão Democrática pelos Sócios - “As associações são organizações democráticas, controladas pelos seus sócios, que participam ativamente no estabelecimento das suas políticas e na tomada de decisões. Os homens e mulheres, eleitos como representantes, são responsáveis para com os sócios”;


·Princípio da Participação Econômica dos Sócios - “Os sócios contribuem de forma equitativa e controlam democraticamente as suas associações através da deliberação em assembleia-geral”;


·Princípio da Autonomia e Independência - “As associações são organizações autônomas de ajuda mútua, controlada pelos seus sócios.Podem entrarem um acordo operacional com outras entidades, inclusive governamentais, ou recebendo capital de origem externa, devendo fazê-lo de forma a preservar o seu controle democrático pelos sócios e manter a sua autonomia”;


·Princípio da Educação, Formação e Informação - “As associações devem proporcionar educação e formação aos sócios, dirigentes eleitos e administradores, de modo a contribuir efetivamente para o seu desenvolvimento”;


·Princípio da Interação - “As associações podem satisfazer as necessidades dos seus sócios mais eficazmente e fortalecer o movimento associativista, se trabalharem juntas, através de estruturas locais, nacionais, regionais ou internacionais” e;


·Princípio do Interesse pela Comunidade - “As associações trabalham pelo desenvolvimento sustentável das suas comunidades, municípios, regiões, estados e país através de políticas aprovadas pelos seus membros”.



Já os princípios do associativismo informal irão depender de cada caso, em parte serão determinados pelos próprios objetivos de cada grupo. Entre as vantagens do associativismo podemos citar:

·Permitir que seus associados atinjam objetivos maiores e de forma mais rápida do que se estivessem trabalhando sozinhos;


·Possibilitar o crescimento pessoal e profissional, uma vez que, se houver interesse, as habilidades de uns podem ser aprendidas pelos outros, havendo uma troca de informação entre seus membros;


·Aglutinar as pessoas que passam a atuar como parte de uma estrutura maior, facilitando o processo de encontrar soluções para os problemas que surgem;


·Remeter aos associados o sentimento que devem compartilhar, repartir os dividendos e, ajudar-se nas dificuldades;

·Criar e disponibilizar soluções coletivas, como por exemplo, serviços de garantia de crédito, prospecção de oportunidades de negócios, infraestruturas, desenvolvimento de produtos e sistemas de informação e;


·Criar condições mais favoráveis nas interações com: governo, centros de tecnologia, universidades e grandes empresas.


A história do associativismo no Brasil

O associativismo no Brasil tem origem na chegada da família real portuguesa, em 1808. Em 15 de julho de 1811 foi criada em Salvador, na Bahia, a primeira associação comercial do Brasil. O que os levou a criar a associação foi:

·Necessidade dos empresários de ter um local onde pudessem se reunir regularmente e aí realizar seus negócios;


·Interesse do Vice-Rei do Brasil, VIII Conde dos Arcos, no desenvolvimento da província e;


·Visão do Príncipe Regente, D. João VI de promover o progresso da Colônia, sede provisória da Corte Portuguesa.

Entre as principais conquistas da primeira associação comercial do Brasil, pode-se citar:

·Em 1849, importou da Inglaterra a primeira bomba contra incêndio em Salvador, com mangueiras e escada de molas, encarregando-se da sua operação, até transferi-la para a Sociedade de Voluntários Contra Incêndios;


·Em 1855, atuação marcante na epidemia de cólera morbus, tomando a frente das ações comunitárias em favor das vítimas e oferecendo sua própria sede para seu atendimento e;


·Em 1970, liderou o movimento da iniciativa privada, somando esforços com o Governo do Estado, para a implementação do Polo Petroquímico de Camaçari.

O movimento associativista, iniciado com a fundação da Associação Comercial de Salvador, espalhou-se pelo país. Em 1884, em São Paulo, é fundada a Associação Comercial e Agrícola, que dá origem a Associação Comercial de São Paulo (ACSP).

A ACSP, além do constante foco na inovação e na qualidade dos serviços, é referência no estudo e na consultoria sobre políticas econômicas, no desenvolvimento de projetos essenciais para o empreendedorismo e na defesa da livre iniciativa para grandes e pequenos negócios. Atualmente, agrega em seu quadro associativo representantes de todos os setores da economia e conta com 15 distritais espalhadas pela cidade. Em 1901, em Santa Catarina, na cidade de Blumenau, é fundada a primeira Associação Comercial e Industrial do estado, hoje Associação Empresarial de Blumenau (ACIB).

Essas associações, sentindo a necessidade de representação, não só em nível municipal, mas também estadual e nacional passaram a se organizar em federações e confederação.

Mais recentemente a CNI criou o Programa de Desenvolvimento Associativo (PDA) com o objetivo de fortalecer a relação entre as indústrias e suas instituições de representação. Este programa visa, através da profissionalização, fortalecer os sindicatos, melhorando a representação das demandas da indústria.

Ainda, o PDA objetiva aproximar os empresários, principalmente os micro e pequenos, do Sistema Indústria, que além dos sindicatos e das federações, é composto também por SESI, SENAI e IEL. Empresas de pequeno porte têm, nos sindicatos e nas federações, aliados importantes para obter serviços como capacitação e consultorias, que dificilmente poderiam contratar.

O associativismo é fundamental, tanto para novos empreendedores, micros e pequenas empresas, como também para empresas maiores. Para novos empreendedores o relacionamento com parceiros proporcionará o aceso a recursos necessários para explorar as oportunidades percebidas.

Para todos, as associações viabilizarão estratégias cooperativas, bem como alianças para alcançarem as competências que lhes facilitarão a construção das vantagens competitivas. Entre essas competências, podem ser citadas: informação, acesso a recursos financeiros, acesso a conhecimento e experiências, reconhecimento social, entre outras. As associações em diversas formas proveem as organizações de uma série de recursos ainda não disponíveis em seus negócios, ajudando-as a atingirem seus objetivos.

O associativismo torna-se ainda mais importante em momentos de crise e incertezas onde as organizações precisam superar contextos desafiadores. Os cenários serão mais favoráveis quanto mais forte e representativo for o movimento associativista.

Ministrando aulas em uma turma de pós-graduação coloquei aos alunos a seguinte questão: “Identificada, no momento de produção, uma falta de estoque de matéria-prima e com o firme propósito de não atrasar com o cliente, quais alternativas teríamos para garantir a entrega na quantidade e prazo contratados?” O professor, quando faz a pergunta, já tem em mente algumas alternativas de resposta, mas confesso, a alternativa que a aluna sugeriu somente passou a fazer parte da minha lista a partir daquele dia.

A sugestão foi: “peça emprestado ao concorrente”. Inicialmente fiquei surpreso. A aluna esclareceu que no ramo de confecções da região era comum que as empresas se “ajudassem” e esta seria uma forma de não atrasar com os clientes. Esse é um ótimo exemplo de consolidação do espírito associativo, mais comum entre micros e pequenas empresas. A confiança viabiliza a cooperação e esta garante que todos poderão ser beneficiados.

A lógica de atuação em redes empresariais surge a partir da consciência e da cultura empresarial. Preocupa apenas, a falta de entendimento da importância do associativismo, demonstrada pelos gestores de empresas incubadas. Não alcançam a compreensão do termo quando associado à formação de network.

O associativismo, pouco praticado pelas incubadoras e pouco importante para os incubados, é fundamental para os negócios, principalmente em se tratando de pequenas empresas. É pelo associativismo que as empresas se organizam para competir em escala global. Em um ambiente altamente competitivo, é o único caminho possível para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas.



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