Ações estruturantes para garantir a sobrevivência e viabilidade do setor ferramenteiro nacional

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O setor de fabricação de moldes no Brasil passou por momentos críticos, uma vez que o nível de importação tem crescido vertiginosamente.


A demanda por moldes aumentou nos últimos 10 anos, mas a produção interna caiu consideravelmente. A diferença é suprida pelas importações. Entretanto não é só esse setor que está sob ameaça. Diversos segmentos do ramo metalmecânico estão em dificuldades.

Atualmente o setor vive um momento bom da economia. A crise de 2008 fez com que algumas medidas econômicas fossem adotadas pelo governo federal, entre elas o Programa de Sustentação do Investimento (PSI), que fixou a taxa do FINAME em 4,5% ao ano. Com isso muitas empresas apressaram o passo na compra de injetoras e moldes, projetando de maneira fantástica o setor nacional (o FINAME não financia moldes e máquinas importadas). Por um momento a taxa foi ainda mais reduzida, para 2,5% ao ano.

Além disso, ações de entidades empresariais têm defendido junto a órgãos do governo federal medidas para recuperação da perda de competitividade do ramo de ferramentais na última década.

Por outro lado, percebe-se a inundação de recursos estrangeiros no país, principalmente com foco em aplicação financeira, em função dos altos juros praticados no Brasil. Também é notória essa entrada de investimentos diretos no setor de máquinas. O Brasil ainda é um país em desenvolvimento, portanto precisa de recursos estrangeiros e, acima de tudo, de conhecimento técnico. Mas deve, rapidamente, elaborar um planejamento para longo prazo, o que, definitivamente, não existe.


Nesse planejamento é preciso contemplar o investimento estrangeiro direto (IED), inicialmente com foco na montagem de máquinas, e, gradativamente, a migração de tais recursos para a fabricação nacional, já com know-how adquirido na fase anterior. O conhecido índice de nacionalização tem de ser adotado. Assim deve ser feito em todos os setores produtivos de nossa economia.

A seguir vamos analisar alguns tópicos que, sobremaneira, influenciam no sucesso ou fracasso das empresas e que, se corrigidos, poderão projetar o Brasil no ranking mundial dos maiores fabricantes de ferramentais.

Fator Exportação

A exportação de moldes do Brasil para outros países é insignificante. Por outro lado, a importação está em franca ascensão, superando US$ 1 bilhão/ano. No passado o Brasil exportava moldes de baixo valor agregado e importava moldes mais complexos.

Atualmente até mesmo os mais simples têm vindo do exterior. Os principais países concorrentes são os asiáticos, entretanto, por conta da crise na Europa, já temos também uma concorrência acirrada de países daquele continente - fortes no setor ferramenteiro, como Portugal, Espanha e Itália. As linhas de produtos mais afetadas são a automobilística, de construção civil e de embalagens. Mas todas as outras, como eletroeletrônicos, por exemplo, também têm forte concorrência.

Portanto, antes de focar as ações para a exportação, devem ser tomadas as medidas adequadas para reforçar a participação no mercado interno e, com isso, preparar as empresas para a inserção no mercado internacional.

Fator Importação

A importação de moldes, sejam novos ou usados, absorve empregos que poderiam ser aplicados no Brasil. Outro fator preponderante na importação de ferramentais é a perda de conhecimento do “como fazer” (know-how). E, no caso de moldes usados, fica ainda a questão da obsolescência do projeto.

Esses moldes são, normalmente, de produtos que saíram de linha em outros países. Assim, são repassados para países “menos importantes”. Por exemplo, a nova geração de um veículo na Europa substitui uma anterior que é enviada para os países em desenvolvimento. Não obstante, temos ainda a questão da produtividade dos ferramentais.Muito provavelmente esses moldes serão menos produtivos que os mais novos. Portanto, o custo de produção com eles será maior e a competitividade menor.

É preciso entender também que o comércio internacional é saudável e necessário. Tanto os outros países querem vender para o Brasil quanto o Brasil quer vender para outros mercados. A nossa defesa tem se pautado na igualdade das relações comerciais internacionais.


Não é possível nem viável economicamente concorrermos com regras desiguais. Assim, é preciso buscar, em todos os níveis da gestão pública e privada, a melhoria da nossa competitividade. Temos muitas lições de casa para fazer em nossas empresas. E o governo precisa reorganizar muitas das regras atuais.


É importante comentar que tanto os entraves quanto os desafios estão postos para duas componentes importantes da cadeia produtiva: os empresários e os governos municipal, estadual e federal. Todas as tecnologias disponíveis no mundo podem ser adquiridas por qualquer país, todavia alguns segmentos exigem capacitação específica de equipes. Nesse ponto precisamos evoluir muito.


Legislação Civil, Trabalhista e Fiscal

Um grande diferencial e impeditivo para o crescimento dos fabricantes nacionais é a complexa legislação de nosso país, seja ela civil, fiscal ou trabalhista. Além de diversas outras leis, precisamos urgentemente regulamentar o comércio exterior de ferramentais, por exemplo, na exigência de responsabilidade técnica nos moldes importados.


As ferramentarias nacionais são monitoradas pelo Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CONFEA), que exige, por meio de seus Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) e de uma lei federal a Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), onde um profissional (engenheiro ou técnico mecânico) assina a responsabilidade pelos produtos fabricados aqui.


Contudo um ferramental importado não tem essa exigência. Isso tem dois lados negativos: o primeiro é uma desigualdade com relação aos fabricantes nacionais, e o outro é a falta de um responsável em caso de alguma falha técnica ou acidente. Nessa situação, o próprio cliente é lesado.


Também a revisão da legislação trabalhista, no sentido de desonerar a folha, trará fortes benefícios à competitividade de todos os setores produtivos do Brasil. Esse item já está sendo negociado entre empresários, governo e sindicatos.


Carga Tributária

Outro desafio não menos importante é a redução ou eliminação de cobrança de impostos sobre os meios produtivos. Em qualquer país desenvolvido os impostos sobre a venda de máquinas são mínimos (ou até não existem), pois elas são a base da indústria de um país. O imposto deve ser cobrado na ponta, sobre o produto produzido. Nesses países o acesso a financiamentos é facilitado. As taxas de juros são baixíssimas.

Como exemplo, a Alemanha trata a indústria de máquinas como a “indústria da indústria de base”, tal o valor imputado para essa área da produção.

Reforma Fiscal e Tributária

Ainda, a reforma fiscal e tributária é uma das mais importantes componentes para redirecionar o futuro do país. Como exemplo, o Movimento Brasil Eficiente (MBE) dedica-se fortemente a sensibilizar a classe política e a sociedade civil organizada a aprovar um projeto de simplificação da carga que, se aplicado, trará fomento ao mercado e alavancará consistentemente a economia brasileira.

As tarefas ali definidas devem ser conduzidas a órgãos públicos. Se aprovadas, as medidas tornarão os custos de fabricação bem mais enxutos e, consequentemente, o preço final muito mais atrativo.

Fator Empresário

No tocante aos empresários, uma das grandes carências do setor ferramenteiro nacional é a falta de conhecimento de si próprio. De maneira geral, o empresariado brasileiro não é preparado para a função de gestor de negócios. A grande competência é a parte técnica. Como todo profissional técnico, o ferramenteiro é movido por paixão pelo negócio. Assim, a princípio o empresário ferramenteiro é dinâmico, mas pouco inovador.

A falta de conhecimento e prática em planejamento não permite que ele se programe para pensar estrategicamente a empresa. O resultado é que o ferramenteiro vai “apagando o fogo” diariamente e não sobra tempo para pensar em inovar, melhorar processos, avaliar alternativas, vislumbrar novos negócios. É preciso trabalhar para reverter essa realidade.


Também a falta de envolvimento dos empresários com as entidades empresariais organizadas é notória. Não há um diagnóstico preciso do número de ferramentarias no país ou por regiões. Uma das ações importantes a serem implementadas pela ABINFER é o levantamento minucioso do setor, identificando competências e capacidades produtivas. Informações extraoficiais dão conta de um universo de cerca de 2 mil ferramentarias de mercado no Brasil. Some-se a estas outro bloco de mais de 3.000 ferramentarias cativas, que operam somente para uso próprio da empresa mãe.


Além disso, o empresário tem de perceber que há muito para buscar em competitividade e produtividade “da porta para dentro”. Via de regra, ainda utilizamos processos de fabricação ultrapassados e ineficientes.

Fator Empregado

O funcionário precisa entender que a capacitação não é somente uma obrigação da empresa e que ele deve, por iniciativa própria, buscar aperfeiçoamento na profissão. Enfim, há muitos desafios para superar, mas todos são possíveis de realizar em curto e médio prazo.

Fator Tecnologia

Em um mundo globalizado, não há mais restrição à implantação de novas tecnologias. O que emperra o processo são os custos inerentes a tal implantação. E nesse ponto é preciso avançar muito. Em uma análise macro, é possível dizer que estamos em um nível medíocre de tecnologia.


São raras as empresas que dispõem de recursos de usinagem em quatro ou mais eixos, que operam com altas velocidades de usinagem, que possuem sistemas de simulação reológica e/ou estrutural ou que têm equipamentos de prototipagem rápida ou manufatura aditiva. Essas são tecnologias já comuns em países mais desenvolvidos e, por consequência, mais competitivos.


A próxima onda é a Indústria 4.0, focada na conectividade dos equipamentos via Internet Industrial (II - Industrial Internet) e Internet das Coisas (IoT - Internet of Things). Estamos ainda entre a Indústria 2.0 e 3.0, muito aquém da nova abordagem. O esforço e dedicação para atingirmos o “novo nível” será gigantesco. Mas precisamos começar.


Novo Regime Automotivo

A legislação do novo regime automotivo (INOVAR-AUTO) foi publicada, e a operação iniciou em 2013. O impacto dessa medida foi benéfico para o ramo de moldes porque menciona explicitamente o setor ferramenteiro na lei. O novo regime automotivo é válido para o período de janeiro de 2013 a dezembro de 2017. A projeção é de que será necessário estendê-lo para um período mínimo de dez anos a fim de permitir o aprendizado, a preparação e a implantação de melhorias no parque fabril nacional e na capacitação de profissionais.


No momento já há diversas iniciativas na linha de desenhar a próxima fase do Programa INOVAR-AUTO, tanto do poder público quanto dos setores privados, por meio de entidades e associações de classe.


Um período de cinco anos é insuficiente para formar uma geração de novos empreendedores e para melhorar a estrutura já disponível. Mas isso não deve ser um impedimento para o crescimento do setor. De outro lado, o empresário não deve se conformar com a situação e sentar em “berço esplêndido”. Será necessário investir muito esforço e trabalho para, ao fim do programa, consolidar um setor forte, competitivo e sustentável.


Conclusão

Em resumo, o país tem atraído diversas empresas que passaram a operar no Brasil, entre elas gigantes do setor automotivo. Esse fator constitui um indicador positivo e nos faz acreditar que, nos próximos 10 anos teremos um crescimento sensível do setor ferramenteiro do país.


A oportunidade aparece então na rapidez com que possamos nos adaptar e nos preparar para atender a tais demandas. Quanto mais rápidos formos a adequar nosso ambiente industrial - com parque fabril moderno e profissionais capacitados - tanto mais evidente será nosso sucesso.


Enfim, os bons ventos para o setor ferramenteiro serão tanto maiores e duradouros quanto mais rápida for a operacionalização das ações definidas no planejamento estratégico. E para isso é primordial a participação de empresários, funcionários, órgãos públicos e sociedade civil organizada.

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